Saindo do portal criado por Tyordormi, e ainda em cima da dragoa, Lyasnthia olhou para o cenário que estava à sua frente, reconhecendo parte dele e porque era avermelhado.
Por todos os lados via-se enormes cristais avermelhados, que emitiam uma energia débil, nem boa nem negativa. Os cristais estavam rachados em diversos pontos, certamente por conta do impacto que os cravara no chão, e pareciam sangrar. O líquido avermelhado que escorria das fissuras parecia sangue, e era perceptível sentir que a fauna e a flora do local estava mudando; o próprio chão onde estavam encravados os cristais parecia contaminado de alguma forma. Estavam sobrevoando a ilha ao norte de Azuremyst.
Olhando para o sul, ainda era possível ver fumaça saindo da ilha, na direção de onde ficava Exodar. Ou a enorme nave dimensional acabara de cair, ou sua queda ainda era recente. Mas não tinha como ver com precisão a nave para se situar corretamente no tempo. E nem mesmo teve tempo de se preocupar, pois logo abaixo das duas estava uma situação um tanto preocupante, mesmo que soubesse o que estava por vir.
De perto de um dos cristais, um portal nefasto estava aberto, e diversas criaturas saíam dele. Não podia sentir seu cheiro, o que era bom, mas sabia o que eram. Seus torsos nus, com a cintura para baixo como a de cabras, com cascos rachados e mal cuidados, suas costas e braços cobertos pela mesma pelagem que cobriam parte de suas cabeças, grandes chifres e presas e o olhar de pura maldade e vontade de destruir, ainda que não fossem totalmente definidos àquela distância, tornava a presença dos Satyrs uma realidade, e o começo da profanação daquela ilha.
Vindos do sul, em direção à horda de satyrs que estava aparecendo uma outra horda chegava. e esta contrastava fortemente com a que estava vendo. Seus integrantes lembravam bastante os Satyrs, mas no lugar da pele avermelhada daqueles, estes tinhas as cores variando do branco ao azul. Estavam vestidos em armaduras douradas e brancas, e podia ver a bandeira azulada com um símbolo dourado hasteada e levada à frente da falange de paladinos da ordem Hand of Argus. Eram os paladinos draenei que chegavam para combater a invasão demoníaca dos Satyr. Era perceptível que as forças draenei estavam em menor número que os Satyrs, e que os números destes só aumentavam, mas a falange draenei seguia sem hesitar.
Quando os paladinos pararam frente aos Satyr, que olhavam para os draenei como lobos famintos olham para coelhos, o paladino que portava a bandeira da Hand of Argus se adiantou e seguiu sozinho para o Satyr mais alto, que estava à frente dos demais, que parecia ser uma espécie de líder. Era visivel agora para Lysanthia, que estava ainda às costas da dragoa que se sustentava no ar, acima dos exércitos, que a missão dos draenei ali eram de paz. Tão visível quanto a missão dos Satyr não era.
Assim que o portador da bandeira se aproximou do Satyr, este atacou o paladino, arrancando com um tapa das costas de sua mão o elmo do paladino e cravando suas presas afiadas no pescoço vulnerável do draenei. E assim houve a primeira agressão, e as duas forças entraram em combate.
- Ainda não entendo o que devo ver aqui, Tyor. – falou a druida para a dragoa. – Ainda que não me agrade ver este combate, me parece certo que os paladinos tem vantagens neste combate.
E, de fato, apesar da diferença numérica entre as duas forças, e do fato que muitos paladinos tombaram ante a selvageria dos Satyr, a Luz Sagrada dava uma vantagem considerável aos combatentes de outro mundo.
- Tenha paciência, jovem druida. – respondeu a dragoa, com a voz de quem sabe o que vai acontecer. – Não tardará o momento que você desejará não ter me conhecido.
- Não creio que isso seja possí…
A frase de Lysanthia for cortada por um grito cheio de dor e ódio vindo do campo de combate. Não era diferente dos demais gritos, mas destacava-se pela leve familiaridade na voz que gritava.
- Zahnia… – sussurou Lysanthia ao reconhecer a voz.
Olhou na direção que ouviu o grito e viu, entre um grande número de corpos avermelhados de Satyrs, uma paladina que gritava com outra draenei no seu colo.
Mesmo à distância que estavam, a druida podia ver nos olhos da draenei o ódio e a dor que queimavam sua antiga líder, então uma paladina. E pode notar, na draenei que estava no seu colo, visivelmente morta, os traços semelhantes àquela que gritava. Zahnia gritava longa e dolorosamente, olhando para os céus, em sua língua natal. A druida não sabia o que ela estava falando, mas era claro que eram maldições para os Satyrs que estavam à sua volta. E um deles, ao ver Zahnia, jogou uma bola de fogo nelas, ateando fogo às vestes das duas paladinas.
Lysanthia não pensou duas vezes, saltando de cima da dragoa em direção à sua ex-líder, transformando-se em ave de rapina no processo. Ainda que a dragoa tenha demorado apenas um instante para entender o que estava acontecendo, foi por pouco que não conseguiu abocanhar a ave que descia rapidamente em direção à batalha e tirá-la de seu curso. Prendendo Lysanthia em forma de ave em suas poderosas mandíbulas, Tyordormi voltou para o alto segurando com cuidado, mas firmemente, a druida, que tornou a olhar para baixo.
Zahnia estava cercada por Satyrs, sendo uma das poucas sobreviventes do ataque. Ainda que os paladinos tenham derrubado muito mais Satyrs, eles perderam o combate, isso era visível. E os prisioneiros, Zahnia entre eles, estavam sendo acorrentados e presos à estacas de madeira, enquanto outros Satyrs arrancavam suas armaduras e vestes, os forçando a assistir enquanto os demônios profanavam os corpos dos que haviam caído. Os presos mal conseguiam manter-se despertos, mas apenas uma delas, que hurrava e gritava, ainda lutava para tentar se soltar, gritando ora em sua língua natal, ora em linguagem comum, para que tirassem suas mãos da outra draenei, que ora ela chamava de “flor”, ora de “filha”, ora de “vida”.
Então o tempo começou a correr mais rápido, com movimentos passando em um borrão no chão, as nuvens passando mais rápido e dia virando noite, enquanto a druida transformava-se lentamente em elfa novamente. Ela ainda dentro da boca semi-fechada da dragoa, mas quase não oferecia mais nenhuma resistência, visivelmente alquebrada pelo que tinha visto. A dragoa podia sentir o gosto salgado das lágrimas da druida que tivera que aprisionar, mas manteve-se firme. Pelo menos para a druida, que não pôde ver a única lágrima que escorreu do olho esquerdo de Tyordormi.
Quando o tempo diminuiu sua velocidade novamente, o campo de combate estava parado, os corpos dos draenei mortos estavam ainda ali caídos, apenas um dos presos ainda estava se movendo, ainda que pouco. Era Zahnia que, ainda que com seu corpo fragilizado, tentava se libertar. Os Satyrs haviam desaparecido. Lysanthia sentiu que a mândíbula que a mantia presa se abria, a deixando livre. Sem pensar duas vezes, começou a se mover, primeiro lentamente, testando a reação da dragoa, que permaneceu impassível, depois se soltando novamente em direção ao chão, transformando-se em ave.
Sem ser interrompida em seu vôo desta vez, Lysanthia pode descer ao lado da draenei, e transformando-se em urso, arrancou facilmente as amarras que prendiam a draenei, virando elfa novamente para segurar a draenei que ameaçava cair. Assim que segurou a draenei, foi empurrada por ela com força, que Lysanthia não esperava que houvesse ainda em Zahnia que gritou algo e correu para o norte. Ou tentou correr, pois caiu pouco depois.
Lysanthia ameaçou seguir, mas ao sentir uma mão segurar seu ombro, virou-se e viu Tyor, em forma de highelf ao seu lado. Sequer a ouvira pousar ou andar, tão focada estava em ajudar a draenei.
- Deixe-na, Lys. – disse Tyor, com a voz calma. – Já a deixei interferir demais. Ela precisa ser encontrada para dar continuidade à sua vida.
- Qual vida? – respondeu nervosa a druida. – Diga-me, Tyor, qual vida? Ela vai morrer ali, com esses Satyrs por aqui!
- Ela viveu o suficiente para te convidar para a Burning Rose, não? – respondeu ainda calma a dragoa. – Precisamos voltar ao seu tempo, agora.
- E o que será dela, Tyor? – respondeu Lysanthia, sentindo suas pernas fraquejarem e lágrimas escorrendo seu rosto. – Como ela pode ter sobrevivido à perda de sua filha?
- Te explicarei no caminho de volta à Darnassus do futuro, no nosso presente, que é nosso destino. – disse Tyor, virando novamente dragão e esticando suas asas, preparando-se para voar.
Lysanthia não se moveu para subir na dragoa, mas também não fez objeção quando foi pega delicadamente pelas hábeis patas dianteiras de Tyordormi, como uma criança adormecida.
Enquanto voavam em direção noroeste, rumo a Darnassus, Tyor contou que pouco depois de ter sido solta, um destacamento da Hand of Argus recuperou Zahnia, que estava em estado semi-consciente, e foi levada de volta à Exodar. Lá, mesmo tendo suas feridas curadas por seus semelhantes, foi apenas com a visita do Lich King em sua mente que a draenei pôde se levantar, e seguir seu destino rumo à fortaleza negra Acherus em Eastern Plaguelands, tornando-se uma das guerreiras do Rei Lich, uma Death Knight.
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